Tico Santa Cruz – capa da Edição 43

Tico Santa Cruz – capa da Edição 43

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Vocalista da banda Detonautas Rock Clube contou à Revista Ícone sobre a relação com a Internet, as parcerias musicais e o lançamento do CD duplo “A Saga Continua”

Por Camila Heloíse

São 17 anos de carreira entre CDs, DVDs, festivais e shows pelas cidades do mundo todo. A banda Detonautas Rock Clube se iniciou depois de uma conversa pela internet e hoje detona com suas canções ousadas, pesadas e, por que não, românticas.

Eles são tatuados, cheios de estilo e de personalidade. Críticos, não só quando se fala de música, mas, sempre se posicionam e apresentam sua opinião sobre qualquer assunto que esteja em pauta. Atuais, exigentes e autossuficientes. A banda Detonautas Rock Clube, composta por Tico Santa Cruz, Philippe Fernandes, Renato Rocha, André Macarrão, Fábio Brasil e DJ Cléston é tida como uma das mais queridas – e seguidas – para quem aprecia a boa música brasileira.

Conhecedores que somos do talento da banda, caímos na estrada para conhecer de perto os Detonautas e descobrir um pouco mais sobre o universo dos roqueiros brasileiros. E foi na cidade de Americana/SP que Tico Santa Cruz nos recebeu com muita simpatia para um bate-papo que terminou com um convite especial, a Revista Ícone teve o prazer e a honra de assistir do palco a passagem de som para o show que aconteceria naquela noite.

Apresentando agora um CD duplo, depois de seis anos sem lançar um novo disco, Tico Santa Cruz falou sobre “A Saga Continua”.

Vocês ficaram anos sem lançar um novo CD. Por que todo esse tempo?

Tico - Na verdade, nós lançamos músicas de uma forma diferente do que é a tradicional do mercado. O disco físico que lançamos agora levou seis anos para se materializar. Mas, ao longo desse período, a gente foi lançando canções pela plataforma SoundCloud onde os fãs podiam baixar e ouvir as músicas de acordo com o interesse deles, sem nenhum vínculo comercial. Lançamos oito faixas antes de lançar o disco. Só que a gente tinha essa cobrança, a até da própria banda, de lançar um material físico para poder se configurar como uma obra da forma tradicional do mercado. Aí resolvemos fazer esse disco, entrando no estúdio no final do ano de 2013. Quando vimos, percebemos que tinha muito material, e aí fomos escolhendo de acordo com o que era mais relevante para banda e caímos em outro problema, porque, como nesses seis anos a gente foi fazendo coisas de forma muito diferente, observamos que tinha universos muito diferentes ali…

Destaque
Foto: Eduardo Machado/Revista Ícone

Por isso foi lançado disco duplo?

Tico – É. Não é um disco regular que tem uma só nuance de músicas. Era muita variedade de temas e abordagens e eles não estavam casando harmonicamente. Então optamos por criar dois universos. Um mais acessível para quem escuta rádio, TV e que tem essa relação com a banda através das grandes mídias, e outro mais dark, que é para quem tem uma relação mais próxima com a banda e conhece esse lado mais pesado do Detonautas. Lançamos um álbum duplo no momento em que o mercado está recuado, lançando EP e os artistas estão fazendo totalmente o oposto. A gente procura sempre fazer o que acredita, e mesmo que isso se configure como estar na contramão, vamos na contramão mesmo (risos).

E vocês não sentiram algum receio exatamente pelo mercado estar apresentando tanto EP e vocês aparecerem justamente com um CD duplo?

Tico – Não. Acho que a maneira de se consumir hoje, de modo geral, é muito volátil e superficial. Estamos lidando com uma nova geração que tem muita informação ao mesmo tempo circulando e eles estão o tempo inteiro querendo estar seguindo o que está acontecendo. Ao mesmo tempo, isso gera uma superficialidade muito grande. O nosso compromisso não é com essas pessoas. Nosso compromisso é com quem gosta de música, com quem conhece a banda e acompanha nosso trabalho. Então, pra gente, não faz a menor diferença lançar um EP ou lançar um disco duplo, porque sabemos que, de alguma forma, as pessoas que estão seguindo o trabalho do Detonautas estão interessadas no que temos para oferecer. Pode ser um disco duplo, triplo, ou uma coisa que na verdade só represente a nossa maneira de lidar com quem acompanha o Detonautas. E a maneira que a gente teve de lidar nesse momento foi oferecendo esse material, que já estava guardado há muito tempo.

abertura
Foto: Eduardo Machado/Revista Ícone

A banda sempre foi autossuficiente, no entanto, nesse disco duplo aparecem várias parcerias, o que fez vocês pensarem em trabalhar nesse formato agora?

Tico – Em termos de letra eu produzo muito, então a gente ainda é autossuficiente pra isso. Mas, acho que em termos de universo acaba ficando muito restrito também só ao meu universo. Como sou o único compositor da banda praticamente, acredito que chega uma hora em que talvez você se torne repetitivo. Acho que artisticamente, tendo parceiros, você oxigena um pouco mais a criação, e acho que esse disco ainda não foi o disco que teve realmente essa oxigenação toda que talvez a gente possa vir a dar esse passo no próximo, mas já tem o primeiro passo, a primeira iniciativa de trazer pessoas de fora para o contexto da banda. Nesse disco tem uma música que eu apenas interpreto que é o “Hello, Hello”, uma música do Claudio Paradise, um parceiro nosso que trabalha com a gente em outros projetos, e é uma música que quando eu ouvi a primeira vez eu me apaixonei, porque eu preciso muito me apaixonar por uma canção para poder cantar. Pra eu cantar alguma coisa eu tenho que sentir aquilo, senão eu não vou cantar e não adianta, por isso que até então eu não fiz parcerias com outras pessoas. Em termos de instrumentistas a gente teve a participação do Felipe, a outra parceria foi com Jeferson Golçalvez que é um gaitista, e além dessas participações, tivemos a participação do Régis, que é um músico que trabalhou com alguns outros artistas de reggae, a produção do Maurício Barros que é tecladista do Barão Vermelho e que produz o disco do Frejat. Então, existiu uma abertura de outras pessoas que tinham alguma coisa pra acrescentar para que a gente pudesse gerar esse mosaico novo na carreira do Detonautas. E pra finalizar, a gente regravou uma música do Celso Blues Boy, que foi uma pessoa muito especial na vida de todos nós, e regravamos “Sempre Brilhará”.

As músicas de vocês são bastante críticas. A intenção é formar opinião ou apenas desabafar com as canções?

Tico – Você se colocar como formador de opinião no sentido de direcionar as pessoas à sua opinião e elas tomarem aquilo como uma verdade absoluta é uma coisa um pouco perigosa, uma responsabilidade um pouco grande. Eu nunca me coloquei dessa maneira. A música na verdade para mim é um víeis por onde eu acho que seja possível sensibilizar as pessoas. Todas as artes gostariam de ser a música. Porque a música tem o poder de te transportar no tempo, de te trazer o cheiro daquele momento, de te levar para o futuro. Ela mexe com todos os seus sentidos. A música potencializa as coisas, então, como ela tem o poder de potencializar tudo, ela também faz isso com as mensagens. Algumas músicas podem ser meramente de entretenimento e algumas podem ter teor crítico, que no caso do Detonautas existem várias. Como tenho isso na minha vida desde sempre, naturalmente isso migrou para a forma de compor e de apresentar o nosso trabalho.

mosaico (6)
Foto: Eduardo Machado/Revista Ícone

Vocês são muito ativos na internet. É uma mídia alternativa que colabora com a banda?

Tico – Não existe a menor hipótese da existência da banda Detonautas se não fosse a internet. Não tem como desvincular a existência dos Detonautas da internet. Primeiro porque a gente se conheceu por ali, então, eu jamais teria uma banda se não fosse a internet. Segundo, porque foi através da internet que a gente conseguiu alcançar, de alguma maneira, a visibilidade que a gente alcançou hoje em dia. O Detonautas sempre foi uma banda que teve o apoio de uma gravadora, usou os veículos de comunicação de massa da forma como tem que ser usado, Mas a gente nunca fez alguma coisa na TV ou na rádio que não fosse a nossa verdade. Se a gente chegasse a algum lugar e alguém falasse: “Não pode falar isso ou fazer aquilo”, a gente não fazia, e isso fechou muitas portas pra gente. Acabamos nos isolando. Porque o jogo é esse, ou você fala o que eles querem ouvir ou você não entra. É justo, porque ali é um canal, as pessoas trabalham com uma filosofia, uma ideologia, e se a sua não cabe ali, cabe a você saber se quer participar daquilo ou não. Se você acha que chegar lá só para aparecer é útil, e eu já fiz isso várias vezes, mas sem corromper o meu princípio, eu vou usar. Se eu achar que algum lugar está me censurando eu não vou participar. O Detonautas é uma banda marginal dentro do segmento, muita gente conhece o Detonautas porque é famoso, mas não conhece o teor da banda. Muita gente estereotipa a banda porque só conhece pela maneira como as mídias tradicionais apresentam. De fato, não é uma banda que está o tempo inteiro na TV, na rádio ou uma banda que está o tempo inteiro nas paradas de sucesso, mas é uma banda que tem uma legião de seguidores muito grande e que faz um barulho aonde for, e isso é uma coisa que dá um poder para a gente de ter uma independência maior com relação as nossas escolhas e atitudes.

E como vocês encaram o fato de estar lançando um CD e a internet possibilitar que as pessoas baixem as músicas e não precisem compra-lo?

Tico – A realidade é essa. O CD, na verdade, é um artigo de luxo para quem gosta de ter o disco em casa. Pra gente, é mais importante que as pessoas tenham acesso à música. Eu não considero pirataria o cara baixar minha música e ouvir, talvez o sistema considere pirataria o cara baixar música e vender. Mas, para mim, tanto faz se o cara é um camelô e está ali vendendo de alguma maneira o meu CD para ganhar dinheiro e poder ajudar a família dele, por que não? Para mim não vai fazer nenhuma diferença, mas pra ele vai. Não importa para mim, o que importa é que a música chegue até as pessoas.  

Qual recado você deixa para os fãs e leitores da Revista Ícone?

Tico – Agradeço o convite para poder mostrar o trabalho de alguma maneira, de ter um papo bacana e falar das coisas que a gente gosta, sobre questões importantes e relevantes. Quem quiser conhecer mais a banda, procure a banda pelo próprio caminho da banda. Quer ouvir a música do Detonautas? Vai para o site e escuta lá, ou no facebook e troque uma ideia com a banda. A gente não tem muitos intermediários. Se aprofundem. A gente não pode se entregar a essa coisa rasa que as pessoas estão se propondo a viver.  Está todo mundo muito na superfície das coisas. Se aprofundem nos temas, nas notícias, não leiam só as manchetes. Leiam as manchetes, as notícias e procurem as fontes para que a gente possa continuar de alguma maneira fazendo alguma coisa de útil da nossa existência. A não ser que a existência seja só comer, beber, dormir e trabalhar (risos).

Por que Detonautas?

Tico – Detonautas é uma alusão ao fato de termos nos conhecido pela internet. Na época, eu usava o nome de “Detonauta” no chat, e como todo adolescente eu descobri como se usava a linguagem Java e comecei a entrar para ficar “trolando” as pessoas dentro dos chats. Era uma onda de zoação. Então, era “Detonadores de Internautas”, que é uma palavra que a gente que inventou. Com o tempo, fomos nos apropriando da internet como um veículo útil e interessante, e ficou Detonautas, a junção das coisas. A internet está no nosso nome desde o começo e não tinha como fugir disso.

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