Marjorie Estiano – capa da Edição 48

Marjorie Estiano – capa da Edição 48

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Por Camila Heloíse

Ela nasceu em Curitiba/Paraná e desde os 15 anos está envolvida com os palcos como uma artista completa – atuando e cantando.

Marjorie Estiano, 32 anos, marcou profundamente os jovens quando participou do seriado “Malhação” em 2004 na Rede Globo. A vilã Natasha foi seu primeiro papel na TV e seria apenas o início da trajetória de uma mulher encantadora e dedicada. Ao longo dos anos, ela se revelou uma atriz impecável, atuando em várias novelas da Rede Globo, e seu último trabalho na TV foi como Laura, protagonista da novela “Lado a Lado”. A atriz também atuou em longas-metragens e peças por todo o País.

Sem paradas ou fronteiras, Marjorie está envolvida com projetos que acabam de sair do forno. Em Apneia, primeiro longa de Maurício Eça, ela dá vida a Giovanna, uma garota rica que busca um sentido para a vida ao lado das amigas Chris (Marisol Ribeiro) e Julia (Thaila Ayala). E seu terceiro CD, denominado “Oito”, com 11 faixas, sendo 8 autorais e uma versão de “Tahí”, de Joubert De Carvalho. Além disso, o álbum traz participações de Gilberto Gil na canção “Luz do Sol” e Mart’nália em “A Não Ser o Perdão”.

Mesmo com a agenda lotada de compromissos, Marjorie Estiano atendeu a Revista Ícone com muita simpatia e delicadeza, contando um pouco sobre estes dois trabalhos que mostram um pouco mais do seu profissionalismo e talento.

Como você recebeu o convite para participar do filme Apneia?

Marjorie Estiano - O Maurício me chamou para participar desde o início. Acho que ele ficou cerca de cinco anos pra realizar o trabalho e me chamou lá atrás e me apresentou o roteiro. Do roteiro que ele me apresentou até o que a gente foi filmar tiveram muitas modificações. Ele estava ainda em laboratório, experimentando algumas coisas e vendo como aquilo se transformava e chegava a um lugar que ele estava esperando. No final do ano passado ele me falou que já estava com datas e que iríamos rodar.

E o que você achou do tema abordado?

Marjorie Estiano - Achei super interessante a temática. É o primeiro longa do Maurício e acho que ele foi extremamente generoso e aberto na construção desse filme. Foi muito colaborativo. Eu, Marisol, Thaila e ele discutíamos muito entre nós os caminhos e opções e criávamos juntos. Acho que foi uma semana de laboratório e aí começamos a filmar.

Você interpreta Giovanna, quem ela é dentro do filme e o que ela representa?

Marjorie Estiano - A Giovanna, como as outras duas, está na busca de sentir alguma coisa. O filme aborda a elite onde ela tem acesso a totalmente tudo, uma relação diferenciada com os valores, ela tem tudo o que ela quer. Então, a relação com a conquista vai por outro viés. As três estão nessa tentativa de sentir alguma coisa. Acaba ficando um vazio pelas relações funcionais, as amizades estão sempre a serviço de alguma coisa. A Giovanna esta dentro dessa categoria, ela transfere para o namorado a necessidade de ter alguém ali ao seu lado. Não acho nem necessariamente que ela esteja apaixonada por ele, é alguma coisa que ela não tem acesso, então ela se transforma, ela aceita se vestir de outra pessoa e passa por situações humilhantes para ela ter aquela figura ao lado dela. Nesse arco, ela vai até um limite, e ao mesmo tempo, isso não quer dizer que tenha mudado alguma coisa sobre ela, porque não tem reflexão sobre isso. Elas não discutem e não se perguntam muitas coisas.

Como você disse, o filme retrata a vida de garotas ricas que tem acesso a tudo e perdem o sentido e o valor da vida. Como você acha que esse filme pode colaborar com a sociedade?

Marjorie Estiano - Acho que a função de um filme vai muito a partir do que cada um assiste e absorve, vai de acordo com cada um. Essa dramaturgia contemporânea vem junto com um grupo que não se pretende dar a receita, no sentido de dizer o que é que você tem que achar, mas, buscar de você o que você acha. O filme é um retrato dessas meninas. Ele não tem a moral da história, ele não se justifica, ele não está dizendo certo ou errado, está apenas apresentando o momento dessas meninas. Alguns vão se identificar, reconhecer alguém ali, e na verdade isso se faz muito particularmente. Então não posso dizer como isso vai bater em cada um, isso é muito particular.

E o processo para criar a Giovanna? Como foi que você construiu a personagem e em quem se inspirou?

Marjorie Estiano - Para a Giovanna a gente conseguiu referências de imagens e exercícios complementares, criando outras situações além das que estão no roteiro.  A partir daí, vão imagens de outras pessoas. Eu parti do princípio de algumas princesas na verdade, achei que tinha essa relação diferente do coloquial, existe um dia a dia diferente para essas princesas. Algumas referências de olhares, a partir de fotografias, eu tentava absorver um pouco desse olhar. Não teve uma figura inspiradora, mas uma união de elementos que deu uma solidez para a personagem. Qual o limite delas, até onde vai e o que não se sente? Como retratar esse estado anestesiado delas?

No filme, você atua com Thaila Ayala e Marisol Ribeiro, vocês já se conheciam antes disso? Como é a relação entre vocês?

Marjorie Estiano - Já estive com elas em algumas situações diferentes e informalmente. Não as conhecia de relação nenhuma delas e foi muito interessante. Achei a Thaila muito disponível, interessada e comprometida, a Marisol também. Me identifico mais com a Thaila em personalidade, ela é mais prática, a Marisol é mais lúdica. Foi interessante trabalhar esses universos, e ambas são extremamente disponíveis e abertas para esse trabalho, que teve uma proposta coletiva direcionada pelo Maurício.

O que esse projeto modificou em você como pessoa?

Marjorie Estiano - A aceitação desse perfil e dessa outra lógica de raciocínio. A Giovanna é uma menina que não tem muita identidade, e esse tipo de característica era algo que pra mim era muito difícil aceitar. Acho que acaba acontecendo uma seleção feita por mim, talvez nem tão racional, das pessoas que eu convivo e admiro. E entre elas não tem nenhuma nesse sentido que tenha necessidade de existir e de estar ali pra fazer alguma coisa. E através desse estudo eu passei a me relacionar muito melhor e aceitar essa lógica de raciocínio.

Sobre o seu terceiro álbum, por que se chama “Oito”?

Marjorie Estiano - “Oito” surgiu a partir da alusão do símbolo do infinito como algo em fluxo, contínuo. Pra mim, o oito foi um movimento imenso. Quando eu olho para o trabalho eu vejo movimentos refletidos ali. Eu vejo também o movimento em mim refletido nesse trabalho. Foi através dele que eu adquiri um vocabulário para me entender e me manifestar musicalmente. De qualquer forma, dar nome para mim é muito difícil, você tem que resumir e perde um pouco a verticalidade. Achei que foi o mais próximo que eu consegui chegar de algo simbólico, que tivesse um pouco mais de camadas.

As canções do novo CD apresentam uma nova sonoridade, bem diferente dos seus outros dois trabalhos. Elas estão refletindo uma nova Marjorie?

Marjorie Estiano - Na verdade, eu considero um início, porque os dois outros anteriores eu era parte de um projeto, eu era interlocutora do repertório da Malhação. A partir daí que eu comecei a me ouvir mais, a usar uma audição interna e a desenvolver o meu universo. Então, pra mim, esse disco é o primeiro, eu era parte de um projeto e nesse eu sou o centro, ele parte de mim e não o inverso. Esse terceiro (álbum) veio porque eu ainda tenho necessidade de me expor musicalmente e ele só está acontecendo porque eu quero. É uma parte que eu tinha vontade de desenvolver enquanto compositora, enquanto forma de expressão. Ele reflete essa Marjorie de agora e que amanhã não é a mesma coisa também.

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