Eva Wilma, vivendo um dia de cada vez

Eva Wilma, vivendo um dia de cada vez

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Texto Camila Heloíse

Foto João Caldas

 Em turnê com a peça “Azul Resplendor” de Eduardo Adrianzén, Eva Wilma leva na mala muito mais do que objetos pessoais e peças para compor sua personagem, a ex-atriz Blanca Estela Ramírez. Em seus olhos que iluminam por onde passa e com um sorriso sempre generoso, a atriz, que comemora 60 anos de carreira e 80 anos de idade, leva consigo experiências de uma vida repleta de coragem e bom humor.

Premiada no Brasil e no exterior, descendente de alemães, ucranianos judeus e argentinos, Eva iniciou sua carreira aos 14 anos como bailarina clássica. Em 1953, passou a se apresentar com o corpo de balé do IV Centenário de São Paulo, e foi quando também surgiram as primeiras oportunidades para atuar como atriz. Eva atuou com a primeira turma de teatro de arena, interpretando personagens de peças escritas por grandes nomes do teatro. Neste mesmo ano, convidada por Cassiano Gabus Mendes, iniciou seus trabalhos na televisão.

Foram inúmeras novelas e personagens que emocionaram e marcaram épocas. Em 1973, Eva Wilma deu vida às gêmeas Ruth e Rachel em “Mulheres de Areia”, a versão original da novela de Ivani Ribeiro e que até hoje é lembrada com carinho e saudade pelos expectadores veteranos. Ela ainda nos comoveu emprestando seu talento em novelas como “Ciranda de Pedra”, “Sassaricando”, “A Indomada”, “O Rei do Gado”, “Desejo Proibido” e em muitas outras produções. Ao longo da carreira ganhou todos os prêmios mais importantes do Teatro Nacional, e soma participações em 28 peças teatrais, 24 filmes e mais de 60 trabalhos na TV.

Ao lado dos atores Guilherme Webber, Genésio de Barros e grande elenco, Eva Wilma se apresentará no Teatro Estadual de Araras/SP com a peça “Azul Resplendor” nos dias 28 e 29 de novembro. Em entrevista à Revista Ícone, a atriz contou sobre a peça que apresenta os bastidores do teatro e as relações e dramas que se estabelecem entre os atores.

A peça trata de uma homenagem ao mundo do Teatro. De que forma você acha que ela atinge aqueles que estão iniciando a carreira nos palcos? O que o autor usa nestes personagens é o humor crítico. A gente critica a nossa realidade profissional. Então, eu acho que não só os estudantes de teatro, mas quaisquer atores e qualquer pessoa ligada às artes cênicas, vai se divertir. Além de eles se divertirem por causa do humor crítico, nós também nos divertimos. Nesta peça, o autor inicia com um monólogo meu que aborda a plenitude da vida, e encerra o espetáculo com uma declaração de amor ao trabalho do ator. Então, esse final emociona muito o público. O autor tem muito humor crítico, e é um humor que estimula a reflexão.

 O autor tem muito humor crítico, e é um humor que estimula a reflexão

O autor busca sanar de forma bem humorada a curiosidade das pessoas pelos bastidores do teatro. Você acha que a peça diminui a ilusão e desmistifica o que essas pessoas pensam sobre os artistas? Acho que não. Ela só fala com realismo, sem a intenção de desmistificar nada.

Você se identificou com as situações que sua personagem, Blanca Estela, viveu na peça? Na essência não, porque ela abandonou a carreira na metade e eu estou a sessenta anos fazendo teatro, cinema e televisão e no que depender de mim eu continuarei (risos). Mas, tem muitas frases dela que caem feito uma luva para mim. Tem trechos na peça que eu poderia ter dito. Ela (Blanca) foi uma grande atriz e muito inteligente, e desculpe parecer um pouco pretensiosa, mas ela fala coisas que atrizes da minha geração poderiam ter dito.

Com tantos anos de palco, seria possível destacar algum trabalho ou personagem especifico que tenha marcado mais a sua vida? Quem destaca coisas é o público, e o público veterano destaca, sem dúvida, “Mulheres de areia” original de 1973. Eles também destacam a Maria Altiva Pedreira de Mendonça e Albuquerque de ”A Indomada”, todo mundo fala destes, não sou eu quem falo, são eles. Agora, se você quiser que eu te fale, eu digo que foi altamente prazeroso fazer estes trabalhos.  E do teatro tem vários: “Uma mulher e três palhaços” (1952) e o privilégio de ter feito “Um Bonde Chamado Desejo” (1974) de Tennessee Williams, “A megera domada” (1965) de Shakespeare, “O Preço” (1989) de Arthur Miller, “O Santo Inquérito” de Dias Gomes, e acho que já está de bom tamanho né? (risos). São autores clássicos e personagens sempre muito bons de fazer, que dá para fazer um bom trabalho.

Tem que levar muito a sério, tem que mergulhar pra valer no estudo e no conhecimento

Durante os seus 60 anos de carreira, e com a grande disputa entre os artistas por um espaço, qual foi o principal ingrediente para que chegasse até aqui e tivesse tamanho reconhecimento? Eu também fui dirigida pelo Paulo Autran e eu gosto de plagiar uma receita matemática dele porque eu penso assim também. É preciso que as pessoas que querem seguir esta carreira tenham claramente em suas cabeças de que o talento, a inspiração e a vocação, contam mais ou menos quinze por cento. Oitenta por cento é trabalho, estudo, perseverança e esforço. E cinco por cento é sorte. É uma receita matemática, é muito simples. Tem que levar muito a sério, tem que mergulhar pra valer no estudo e no conhecimento.

O que virá depois, como não depende de mim, eu vou continuar

Existe algo em especial em sua carreira que você ainda não realizou? A esta altura da minha vida, não só profissional como pessoal, eu vivo intensamente um dia de cada vez. O que virá depois, como não depende de mim, eu vou continuar. Por mim, vou continuar fazendo teatro, cinema e televisão. É só isso.

O que te fascina no teatro? A brincadeira, o lado criança e lúdico. E a paixão pelo trabalho.

Qual a sua filosofia de vida? Não se levar a serio demais e cultivar o humor.

 

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