A voz que acalma…

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Juliano Matos | Jornalista e palestrante

Morar sozinho durante alguns anos me fez dono de algumas manias. Dormir com o ventilador ligado, até mesmo no inverno, talvez fosse uma das mais estranhas. Nem o casamento me fez abrir mão do barulho de efeito sonífero do meu velho companheiro. Dormir com qualquer tipo de luz, por mais fraca que fosse, nem pensar. O quarto tinha que estar completamente escuro.  Mas isso estava com os dias contados. De repente tudo mudou e mudou de forma tão súbita que, incrivelmente, nem percebi.  Era madrugada quando o meu sono foi interrompido por um grito. Quando fecho os olhos ainda posso ouvir a doce voz de Viviane, desta vez, embargada com um susto já esperado: “Amor, a bolsa estourou!”. Então, a luz se acendeu, o ventilador parou e um novo homem se levantou daquela cama. Valentina, aguardada durante 39 semanas e um dia, finalmente estava chegando. Eu que achei que iria ensinar, acabei aprendendo.  Nesses intensos quatro meses como pai, percebi o quanto nada sabia. Aquilo que achava ser importante deixou de ser prioridade.  A luz que outrora permanecia apagada hoje ilumina o berço ao lado de nossa cama. O barulho do ventilador? Pra que? Se hoje tenho o som da respiração de minha pequena. Nunca mais dormi como antes. E quer saber? Foram as melhores noites da minha vida até agora. Nenhuma igual a outra. No começo acordava com o chorinho, hoje com as risadinhas.

Sabe, quando aprendo a ser pai, reaprendo a ser filho. A primeira lição foi na própria sala de parto. Quando vi minha filhinha pela primeira vez, saindo da barriga de Viviane, o meu coração acelerou e não pude segurar as lágrimas. Estava diante de um amor incondicional. Ela ainda estava “suja”, mas pra mim isso não importava. Só tinha olhos pra ela. Todo aquele ambiente era estranho demais para Valentina. Ela chorava desesperadamente diante dos primeiros procedimentos dos médicos. Foi então que me aproximei e pronunciei de forma bem prolongada o nome dela: Valentiiiiiiiiiiinaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! Instantaneamente, o choro cessou e aqueles lindos olhos, ainda entreabertos por conta da forte luz, começaram a me procurar. Sei que ela ainda não podia me enxergar, mas os ouvidos mostravam a direção de uma voz que ela já conhecia desde o ventre. Então, veio a calma e logo ela estava tranquila nos meus braços. Oh, quanta coisa aprendi naquele dia!  Finalmente entendi como Deus nos vê. Ele, como Pai, também nos ama desde o princípio e mesmo que todos a nossa volta nos vejam como sujos, Deus nos enxerga como limpos, porque o amor Dele não depende de condições.

Como filhos, às vezes, nos vemos diante de ambientes estranhos e as lágrimas inevitavelmente vêm, porém há uma voz mansa chamando pelo nosso nome. Mesmo que os nossos olhos não vejam o rosto Dele diante da Luz, os nossos ouvidos podem perceber a presença gloriosa do Pai. Assim como minha voz foi para a Valentina, só a voz Dele nos dá a paz. Só a voz Dele nos transmite a verdadeira segurança.

Talvez, hoje você esteja exatamente como Valentina no dia do nascimento, assustada, com medo e chorando muito. Então, pare tudo agora e ouça só a voz do Pai. Ele sempre está por perto e quer muito te segurar no colo!

Juliano Matos
jornalista e palestrante
http://www.julianomatos.com.br

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